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Questões

29/09/2009

Qual o conceito de autonomia presente na fala de Paulo Freire, quando ela fala da intervenção do homem no mundo?

Como o conceito de adapatação em Paulo Frere dialoga com o conceito de adaptação em Jean Piajet?

Partindo do princípio de que ambos acreditam que o homem é sujeito de sua ação?

6 Comentários leave one →
  1. Marcelo permalink
    05/10/2009 13:33

    Bom dia a todos,

    a questão sobre o diálogo entre o conceito de adaptação em Freire e em Piaget é bstante profunda, pois ao meu ver, as bases teóricas que sustentam suas posições são distintas.
    Na minha opinião, Paulo Freire é contra a adaptação do sujeito à sociedade, ao mundo. Segundo ele, quanto mais se impõe ao homem a passividade, tanto mais ingenuamente, em lugar de transformar, tende a adaptar-se ao mundo, à realidade parcializada.
    *Na medida em que essa visão anula o poder criador dos homens ou minimiza, estimula sua ingenuidade e não sua criticidade, satisfazendo aos interesses dos opressores, que para estes, o fundamental não é o desnudamento do mundo, sua transformação, pois o seu humanitarismo e não humanismo está em preservar a situação de que a generosidade a que se refere por isso mesmo é que reage, até instintivamente, contra qualquer tentativa de um pensar autêntico que não se deixa emaranhar pelas visões parciais da realidade, buscando sempre os nexos que prendem um ponto ao outro ou um problema a outro. (FREIRE, 1992, p.19)*. Dessa forma, Freire postula a consciência do inacabamento do homem, ou seja, ele está sempre em constante educação, em constante transformação e isso o torna um ser em movimento, que constrói sua ética e sua historicidade.

    Piaget vai falar em adaptação como uma forma do sujeito manter o equilíbrio, ou seja, a adaptação ao meio físico, ao mundo cognoscível, pois é dele que parte o conhecimento, numa visão mais biológica do processo. Adaptação para Piaget é a capacidade do ser humano de adaptar as suas estruturas mentais ou comportamento para se adaptar às exigências do meio. De acordo com Piaget, o desenvolvimento cognitivo consiste em adaptações às novas observações e experiência, e toma forma por meio dos processos de assimilação e acomodação.

    Dessa forma, Piaget vai falar em adaptação como uma forma do sujeito interagir com o meio.
    Para Freire, adaptação refere-se a uma postura ingênua que não permite que o sujeito possa ser crítico e proponha a trasnformação da sociedade. A meu ver, Paiget fala em adaptação do ponto de vista psicológico, ao procurar responder à questão, como o sujeito aprende? Por outro lado, Freire vê a adaptação do ponto de vista social, e a culpabiliza pela inatividade e passividade do sujeito.

    Espero ter lançado esses pontos para discussão e aprofundamento do tema, pois nunca havia parado para pensar sobre essa questão, assim, essa resposta surge meio que no conhecimento empírico. Espero que junto com os colegas possamos discutir isso.

    Marcelo

  2. Rosane Sarturi permalink
    05/10/2009 14:24

    Caro Marcelo

    A tua reflexão está muito bem postulada, acredito que aqui temos alguns pontos que são chave em ambos os estudos, a ação do sujeito, que não é passiva, portanto ativa, que não é isolada, portanto ganha significado no conjunto da sociedade. E a ação dos docentes como necessitaria ser? Como compreender este equilíbrio entre assimilação e acomodação pode constituir-se em forma de aprender, pois para Piaget, aprendemos por adaptação e organização. Vamos ler mias sobre isto?

  3. Daniele permalink
    06/10/2009 3:58

    Olá a todos!
    Eu também nunca havia pensado nestas questões. Mas acredito que o diálogo sobre o conceito de adaptação de Piaget e Freire é uma questão de interpretação. Na verdade penso que eles não estão se referindo a este termo com o mesmo objetivo.
    Para Piaget a assimilação é uma forma de adaptação do sujeito ao meio, mas não no sentido de acomodação no mundo como é para Freire, e sim como forma de processar ou construir um novo conhecimento.
    Acredito que a ação dos docentes deva seguir a teoria de Piaget, utilizar a acomodação como mudança, como transformação. E aí entra a teoria de Freire, que o educador está em constante aprendizado, e que ao ensinar, aprende com seus alunos.

  4. Rosane Sarturi permalink
    06/10/2009 13:06

    Observem como a discussão é complexa e não fica limitada a termos, pois extrapola as questões etimológicas, pois assumem um carater epistemológico. Lembrem-se que a aprendizagem em Piaget ocorre de duas formas, organização e adaptação. O que significa uma e outra? Com base em que Piaget postula esta forma de aprender? Qual a relação entre assimilação acomodação e adaptação na teoria Piagetiana? Adaptar-se significa negar a ação do sujeito? Para discutir….

    • martha helena oliveira noal permalink
      14/12/2009 20:25

      Me parecem conceitos diferentes para a mesma palavra.
      Mas não há contradição nisso.
      Diria que primeiro temos que acomodar conhecimentos (assimilação, sob a ótica de Piaget) para só depois conseguirmos não nos acomodar, conforme Paulo Freire.
      Primeiro temos que aprender a pensar pensamentos. Desenvolvermos a capacidade de simbolizar, refletir, fazer conexões… e talvez só a partir daí,da tomada de consciência, podemos fazer escolhas, ter as “curiosidades” que Freire se refere, lidar com os medos, e provocar ousadias.
      Fico com a idéia que quem não “acomoda” (em Piaget), não consegue “desacomodar” (em Freire).

      • martha helena oliveira noal permalink
        15/12/2009 3:02

        Um diálogo interessante que se pode estabelecer entre os conceitos de Piaget e Freire está na correlação entre a descrição dos estados de consciência teorizados por Paulo Freire (PF) com os estágios da teoria do desenvolvimento proposta por Jean Piaget (JP).
        Onde Freire descreve as características da Consciência Ingênua (Educação e Mudança, Paz e Terra 23ª edição, pg 40-41) pode-se traçar um paralelo com a fase Pré-Operatória de Piaget. Por exemplo:
        “consciência mágica” (PF) x “pensamento ilógico e mágico” (JP);
        “simplismo na interpretação dos problemas/conclusões superficiais” (PF) x “pensamento não reversível” (JP);
        “egocentrismo” (JP) x “sabe tudo, não procura a verdade, trata de impô-la” (PF);
        “realidade é estática e não mutável” (PF) x “pensamento concreto” (JP).

        Já a Consciência Crítica assemelha-se ao Estágio Formal, de Piaget, na medida em que consegue abstrair, ter “profundidade na análise dos problemas” (PF) x “pensamento lógico” (JP), “princípios autênticos de causalidade” (PF) x “causa e efeito”/ “parte e todo” (JP).

        Incluiria aqui também um diálogo de Paulo Freire com Melanie Klein quando esta descreve as posições esquizo-paranóide e depressiva, respectivamente com os estados de consciência ingênua e crítica, quando no primeiro, há a tendência a projetar o compromisso, de forma a cindir bem e mal, enquanto na posição depressiva, consegue contempla-los como faces de uma mesma instância. Freire cita como uma das características da consciência crítica: “repele toda a transferência de responsabilidade e de autoridade e aceita a delegação das mesmas”, ou seja, apropria-se de seu papel de sujeito, capaz de co-responsabilizar-se pelos seus atos, protagonista de sua vida, em última análise.
        Então, partindo do princípio de que “o homem é sujeito de sua ação”, eu diria que, melhor que possa alcançar um certo nível de desenvolvimento, que pode ser oferecido a partir da educação, para que suas ações e escolhas não limitem-se ao campo dos fanatismos, superficialidades e lugares-comuns.

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